Imaginei como a nossa memória pode lembrar fatos simples para depois ver o mundo diferente. Pela manhã prendia uma folha para desenhar, fazia isso para ela não enrugar depois com a tinta aquarela. Lembrei da minha primeira professora, que colou com fita crepe a folha do meu coleguinha porque ele girava para pintar. Ele não podia conhecer o seu desenho, não era permitido olhar diferente, sentir suas formas, querer saborear as cores como no desejo de beber o doce na cascata de chocolate. A minha folha estava presa como a do meu amigo, queria soltá-la, mas estava cativo na tentativa de buscar uma técnica que fizesse meu desenho mais bonito. Não sei se deveria existir essa necessidade de fazer o desenho mais bonito, a nossa memória talvez aprecie mais a surpresa de olhar as formas e as cores livremente. Então que enrugue a folha quando a água diluir a aquarela, porque é assim que acontece quando molhamos as coisas frágeis. Mas a dúvida é mesmo teimosa, porque a fita esticou a minha folha tão bonita que não queria rasgá-la, estava surpreso em ver uma superfície lisinha pedindo cores.
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